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quarta-feira, 29 de abril de 2015

Meditações acerca do psiquismo

Meu templo é Eu&Eu,
nesse templo, como que quase sempre
de maneira sutil o eu entra sem pedir licença

A que entidade psíquica se pode atribuir o desejo autofecundo ?
Esse desejo mobilizado pela falta, o buraco do Real na cerne da psique
Bordeado pelo objeto a, saravá Lacan, desloca-se de significante em significante,
mobiliza o sujeito dividido que agora traduz em símbolos seus desejos.

Porém o Sujeito fala, e no estranhamento entre Sujeito Integral
-corpo, sentimento, movimentos, maneiras, tiques, sonhos,
reações exageradas, esquecimentos, lembranças excessivas, etc-
e sua parcela componente chamada de 'eu', vemos a completude.

Mesmo em tempos em que o 'eu' se degladia contra o Sujeito integral
é a própria situação de conflito o equilíbrio, como na magia da dialetização,
Cuja síntese resultará em um novo Todo. O Sujeito Integral é o Self,
no xamanismo meu humilde orientador nomeara de Eu Maior, Eu Ideal.

Belíssima situação de equilíbrio e completude se assume quando o Eu Ideal entra em cena.
Dormem Intelecto e Eu ? A Integralidade é simplesmente o perfeito equilíbrio dinâmico,
Intelecto e Eu, com suas particularidades <<intelecção e individuação, importante posto que somos células unitárias>> e sua demanda originada do Real.

Essa demanda que sempre nos chega
E até quando aparenta não ter chegado é a demanda acontecendo.
A dor de perder algo, alguém, é a demanda acontecendo,
o perceber posteriormente que a dor da posse é apego, é a demanda.
O Dharma está no Real, e nos permeia independente de como apreendemos isso,
de que nome damos para nossas demandas. O Dharma é tudo que nos chega
em uma posição em que somos Sujeito, que demandam diretamente e indiretamente nossas ações.

O Sujeito Integral, intuitiva e racionalmente, sombraeluz- mente,
transcendido o simbólico, experiencia a totalidade do Real.
O simbólico é o registro de tudo que é expressão, letra, comunicação,
lógica, posto que é o registro onde está inscrito as cisões, que possibilitam a definição.
Apenas pela ausência se define a presença, apenas pelo desprazer nomeia-se desprazer.
Além da letra, além da mente, mas somente a mente letrada, refém da linguagem formal.
A mente imagética, permanece traduzindo o real, e posteriormente
É possível apreender esse Real experienciado imageticamente em um discurso simbólico
seja ele a mera verbalização, o contar, a vivência mnêmica,
artístico-poético, cênico, pictórico, musical, a escrita de prosa anacrônica ou linear.

Os trabalhos espirituais de desconstrução de couraças
são a tradução em imagens oriundas das memórias do indíduo.
O que se traduz nessas imagens ? O chegar à luz da consciência,
o processo dialético da aceitação do que antes se reprimia,
seja ele um problema de autoimagem do 'eu', realização quanto a uma decisão,
resolução de um grande trauma familiar, ou infinitos.

A desconstrução de uma ideia problemática, que disponibiliza respostas negativas
que põe o indivíduo em constante estado de defesa, demanda muito, além do mais,
a grande maioria desses processos conta com a disponibilidade do 'eu', em aceitar ou não.

Nos processos de repressão é natural que o 'eu' tenha aversão a o que é recalcado,
já que o recalcar é justamente o 'projetar fora', expulsar de si tudo que não se quer ver,
delegando ao inconsciente, já que não existe o "fora" psíquico.
É notório que um sujeito em que atuam muitos processos de repressão,
a proporção recalcado-eu recalcador é muito maior, implicando em aversão
a mais partes constitutivas de si mesmo. Isso resulta muitas vezes em processos de desconstrução
violentos quando não respeitados e muitas vezes a resolução final pode ser pior que a inicial
se não respeitado a própria ação do sujeito em sua trama (intervençao externa)


A resolução do que antes estava não-resolvido, agora passa a fluir,
aceitando se libera a tensão da retenção energética, é possível ter a sensação de orgasmo.
A transcendência é um grande e fascinante fenômeno, onde a integralidade pode ser tangida.
Longe de mim afirmar a compreensão do universo em si
mas definitivamente a experienciação mais direta possível entre Sujeito/Real.
Sem o intermédio de símbolos, sem o intermédio da língua, nem da linguagem.

É necessário afirmar que o pensar racional é necessariamente simbólico e linear,
Que para seu funcionar adequado, é indispensável que o 'eu' se aliene ao seu raciocínio.
Alienar-se ao simbólico significa tomar o mapa pelo território em si,
Assumir - e essa assunção é metapsíquica - que o meio pelo qual se percorrerá é legítimo,
a legitimação da linguagem que se utiliza, assim o indivíduo se aliena à linguagem de que se vale.
Como o  amante realmente crê estar expressando seu amor com um longo texto sobre seus sentimentos, mais percebe que se está afastando mais e mais de seu sentimento, posto que valendo-se da razão, alienado a esta, o sentir afetivo do amor não é possível, e é jogado pra escanteio.

O próprio Real não pode ser tangido pelo Simbólico, o que se passa sempre
É uma aproximação, uma amarração, uma metonímia, toma-se sempre o Todo pelo Nome.
Quanto mais se pensa a cerca do sentir, mais se está pensando, e menos se está sentindo,
isso se revela com majestade no Taoísmo.
Mas bem, a verdade em si não é tangido no âmbito do simbólico,
mas a relação social, que legitima o ser social, é mediada pelo simbólico.
Então a tentativa de simbolizar um Real apreendido é válida como produção de um saber,
não como saber absoluto ideal, jamais, posto que é uma expressão simbólica como qualquer outra e não é jamais a coisa em si.

Jorge Madoz

quinta-feira, 14 de março de 2013

Mitcha o Tiranossauro


Desde o começo dos tempos, Mitcha, o dinossauro sofria de solidão. Conhecia muita gente, muitos dinossauros, muitas cabras, e outros animais, mas nenhum deles preenchia o vazio  que Mitcha sentia no dia-a-dia (não um vazio como o vazio de um senhor rosquinha, mas um vazio.. não palpável, ah, não palpável é óbvio visto que é um vazio, então vamos falar que é subjetivo.. vamos falar não, eu vou falar, você apenas lê).

Mitcha morava numa aldeia movimentada, com muitos outros animais e dinossauros, e embora fosse de uma espécie admirada (tiranossauro rex), não gostava do modo como as pessoas o tratavam: “eles estão sempre sorrindo, fazendo as coisas pra mim, é sempre ‘ai senhor tiranossauro magnífico é claro que podemos providenciar pro senhor’ e blablabla, falsidade do cacete”. Ele namorou uma vez, foi muito bom pra ele e tudo mais, namorou uma zebra, o nome dela era Marcelinha (é muito engraçado que alguns pais colocam o nome da filha de um apelido, né ? Eu conheci um garoto uma vez que o nome dele era Biel, Biel, e não Gabriel, mas o apelido dele virou Gabriel de qualquer jeito) e ela estava sempre feliz e contente falando sobre as festas da floresta e sobre os hobbies dela, que gostava de comer batom e etc, mas nunca sobre alguma outra coisa, como um livro (você reparou que aqui falei que eu como um livro ? Gostei muito disso, não de comer o livro, isso eu só falei, mas essa vírgula..), uma música, uma ideia, ou algo do tipo e isso incomodava profundamente Mitcha. Ele um dia terminou com ela porque viu ela traindo ele com o Bento chimpanzé, que era padeiro da aldeia,  na sua cama (na sua não, leitor, na do personagem principal dessa história). “pelo menos não foi na minha biblioteca”, pensou.. e depois devorou os dois.

Passava os dias pensando, sozinho, tocava um pouco de saxofone aqui (com os bracinhos de tiranossauro), lia um livrinho ali, mas sempre solitário e com esse vazio subjetivo. Muitas vezes ele chorava sem saber porque, olhava pela janela esperando ver alguma coisa que não sabia, mas nada vinha, nada acontecia. Antes costumava jogar futebol com os animais da aldeia, era goleiro do time dos macacos, até tinha disputado uma final de campeonato, mas acabou perdendo pro time das zebras e leões num dia ensolarado de domingo. Mas quando o vazio ficou muito claro e expressivo, Mitcha nunca mais jogou, também nunca mais jogou ping-pong (também com os bracinhos) com seu parceiro rinoceronte Joe, com o qual nunca mais falou desde que sua solidão aguda começou.

Você deve estar se perguntando o resto da história, mas há também uma dúvida interessante que eu não tinha pensado até agora, porque assim, dinossauros vivendo com zebras, elefantes, gnus e tal ? Imagina essa aldeia, você tá numa boa tomando um café quando você vê pela janela um dinossauro, de terno, faminto, comendo uma vaca que estava apenas querendo pagar as contas na lotérica. Um dia normal no supermercado, ai “boa tarde senhor, CPF na nota ?”, “não obrigado”, então o atendente e o cliente se olham e pam ! Um velociraptor comprando uns equipamentos pra casa como cera, rodo e tal, e o atendente, uma capivara, então eles se olham, um minuto de tensão, e tchau capivara, tchau atendente, tchau capivara atendente. Se você teve essa duvida, ou está tendo agora, não pense nisso porque afinal é um buraco difícil de tapar.

Enfim, Mitcha e sua solidão estavam passando um dia pela aldeia, cabisbaixo, quando de repente encontrou uma tiranossaura linda e maravilhosa, tomando sorvete, sentada perto da fonte. Mitcha correu e sentou lá e, sem nem pensar, pois ele não estava controlando seu corpo nem seus pensamentos, deu uma lambida no sorvete da tiranossaura. Eles se fitaram longamente, até que ela falou: “tu é doidé  ?”, Mitcha  achou aquilo muito sincero, e nada fútil, como ninguém jamais fora, e nunca esqueceu aquela belas palavras e aquela voz de taquara rachada. Desde esse momento, seu vazio desapareceu, e após muito tempo de conversa, os dois começaram a namorar, falando sobre coisas profundas, e sobre como é uma coisa boa na aldeia ser tiranossauro porque se alguém faz algo que não se gosta, simplesmente devora-se esse alguém, e riam bastante. Casaram-se de pois, tiveram filhos, e morreram juntos com o fim dessa história.

Jorge Madoz

sábado, 2 de março de 2013

Soneto de uma Salvação

De mal humor, sinto-me taça cheia,
Me vejo errante, distante do amor.
De repente, descrente, bela flor
Para me salvar, só você, sereia.

Anjo do mar, princesa, Deusa minha
Em meio a tanta dor, está sozinha.
Eu prepotente, indeciso. Sou só
A criança que balança ali, ó.

Me afogando nesse mar de lamentos
Sinto uma mão que me puxa, me ajuda,
Me mostra o fim do tolo sofrimento.

Essa mão tão doce, que me segura,
Aponta a direção pro meu rebento
Amor, para meus males, minha cura.

Jorge Madoz

Poema de um presente atordoado

Na vida tudo é questão de costume,
Deve-se acostumar-se.
Mas porque então pedir perdão
Depois de tanto tempo ? Não acostumou-se ?
Após tanto tempo acostumado a dormir no chão
Alguém escolhe se acostumar com o colchão.
É sensatez querer se acostumar com o melhor !
Não é falta de noção.

E se após pedir perdão,
Ouves um sonoro "não!" ?
A semente contida no perdão
Já foi plantada no coração,
Pode apostar.

Jorge Madoz




domingo, 19 de agosto de 2012

Johnson, o Ditador


 O fato de gostar de animais não implica querer ter relações sexuais com eles, ser a favor do casamento homossexual não significa ser homossexual, ser feminista não significa ser mulher, ser racista significa não ser racional, ser esquedista não significa ser pobre e ser de direita não significa ser milionário (mas significa querer ser, e detestar a ideia de ajudar os pobres com o dinheiro arrecadado por impostos, afinal eles que se virem trabalhando ou estudando, "não, estudando não, trabalhando apenas estudar é pros meus filhos".). É engraçado ver como se estabelecem essas mensagens em nós através de um tipo de lavagem cerebral discreta oriunda da televisão, mídia no geral e no convívio de nossa própria sociedade. Não é engraçado, é horrível e dificulta nosso convívio social, embora pareça engraçado para alguns fazer piadas de "mulher na cozinha". O leitor guaxinim com certeza absoluta gritou agora: "MENTECAPTOS!", grande maioria dos guaxinins são cultos e não gostam desse tipo de piada, eu também não. Você sabe o que é mentecapto ? Dicionário, agora. Descobriu ? Ótimo, agora continuemos o conto.
  "Extermínio agora !" gritou o ditador Johnson, extermínio de todos os que não se enquadravam no perfil dos cidadãos para seu projeto de cidade nova (referencia ao Estado Novo de Vargas ? É ! Cultura de graça), todos teriam de apoiar incondicionalmente o líder, achá-lo atraente, os comunistas seriam assassinados, capitalistas bilionários e milionários também (milionários e bilionários por terem dinheiro a ser confiscado, comunistas morriam por quererem derrubar Johnson e instalar outra ditadura), os heterossexuais eram assassinados e.. claro que não, isso é o que a bancada evangélica diz que vai ocorrer com a legalização do casamento gay e não o que eu digo na minha história, enfim, homossexuais eram assassinados, deficientes mentais e paraplégicos também, bastante similar com a política do terceiro reich, mas o judeus ficaram numa boa nessa, os imigrantes, por outro lado, não.
  Johnson tinha 1,67m e 90kg, era gordo, bem gordo, branco com uma marca de nascença no pescoço, era careca, daqueles bem careca mesmo, que passam máquina zero na cabeça e depois passam gillette, adorava mulheres (mas elas não o adoravam) e queria ser atraente mas nunca conseguiu desde o ensino médio, e esse sofrimento acabou alimentando esse seu ódio e essa loucura, que canalizou em sua carreira política. No seu plano de sociedade nova, queria matar todos os que se opusessem a ele, ao seu governo, e os que fossem uma ameaça a sua sociedade nova, paraplégicos e deficientes mentais por supostamente prejudicarem suas gerações futuras e homossexuais por não se reproduzirem, imigrantes porque seu padrasto era imigrante italiano e batia nele, esse era seu modo de superar. Johnson tinha um exército extremamente forte para um chefe de Estado em sua posição, mas seu autoritarismo era exercido não pelo exército, mas pelos próprios cidadãos, ele incentivava os cidadãos a denunciarem cidadãos suspeitos, filhos eram ensinados na escola a denunciarem até mesmo os pais se demonstrasem um comportamento suspeito. Seria engraçado imaginar um filho denunciando o pai por homossexualismo porque o pai cansado do trabalho chegou e não quis transar com a mãe, ocorreu, há registros disso.
  No começo as coisas correram bem, relativamente, claro, a sociedade caminhou para o estágio novo do plano de Johnson, porém com o passar de exatos 6 meses, as denúncias passaram a levar a sociedade a outro estágio, um rumo diferente estava sendo tomado, os cidadãos comuns passaram a denunciar uns aos outros por motivos aceitáveis, aos olhos do novo governo (por não acharem o ditador Johnson atraente, essa era a maior acusação), e tirar proveito disso para conseguir promoções no emprego, para eliminar rivais de escola, eliminar quem dava uma fechada no trânsito, e o governo passou a gostar disso, Johnson achava possível que com essas medidas uma sociedade sem babacas, mais agradável de se viver, sem desgraçados, homossexuais, comunistas sujos, criminosos, fosse instituída.
  Mas com o passar do tempo, a população começou a decrescer absurdamente, a taxa de mortalidade era absurdamente alta e a natalidade baixa pois ninguém queria ter filho em uma sociedade doente (doente no sentido de quando alguém é absurdamente nojento ao contar uma história e parece não perceber quão nojento tal parte da história é, e além disso, parece gostar bastante da parte nojenta. Essa pessoa é um doente.). Até que chegou o dia em que fazia 1 ano desde que sua ditadura foi instalada, e ao sair na rua para as comemorações, viu que não tinha ninguém nas ruas, foi para a praça principal da cidade, e também não tinha ninguém. "Essa não, onde será que estão todos ?", "talvez uma festa surpresa !", foi em todos os lugares da cidade e não achou ninguém, era um dia estranho, quieto, ninguém havia lhe dado bom dia, até que teve uma grande ideia "talvez as comemorações estejam acontecendo na área de execução, para comemorar uma sociedade limpa !", ao chegar lá só havia uma pilha de corpos fuzilados (fuzilamento era a onda do momento), Johnson decidiu, não, concluiu, que a festa estava ocorrendo, estavam todos ali para ele, e se juntou a eles se suicidando, sendo a cereja daquele sundae de "opositores" mortos. De fato consegusites uma nova sociedade Johnson !  E aliás, ninguém te achou atraente em nenhum momento, seu babaca.
Jorge Madoz

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Alexandre, o tolo.


De que vale ter nascido em um bosque repleto de árvores bonitas, perto de um lindo rio, em uma vila onde só existem bons vizinhos, onde existem novas coisas para se descobrir a cada dia; onde há o mais bonito de todos os céus, um magnífico pôr-do-sol e um nascer do sol fascinante, de fazer cair o queixo; de que vale tudo isso se não se dá valor ? Ter todas as melhores coisas e não dar valor a elas é como ter braços e não usá-los para escrever, para se coçar, para se lavar, para fazer toda e qualquer coisa que precise dos braços, inclusive plantar bananeira.

   Alexandre é um homem que abandonou toda e qualquer consciência do que possuia, de tudo que lhe foi dado pela vida.  Alexandre nunca soube que a vida é constituída de altos e baixos e que ambos são temporários, nunca soube que a única certeza, é que para não ser derrotado pela vida, deve-se apreciar as pequenas coisas, essas que nos são dadas. O combustível para passar por cima, esmagar os obstáculos da vida é retirar o máximo proveito dessas pequenas coisas, pôr-do-sol, observar formigas em suas tarefas do dia-a-dia, e tudo mais. Mas assim como alguém que decide não usar os braços mesmo possuindo-os e pede a algum outro para coçar sua perna, Alexandre buscou em outras lugares o que tinha em suas mãos.

   Tudo ocorrera muito rápido, mas na realidade a solução para todos os problemas de sua vida sempre estiveram na sua frente mais acessíveis do que qualquer outro caminho menos sofrido. Alexandre trabalhava em uma empresa, onde vendia serviços para outras empresas. A vida não era muito interessante lá, a ambição de se tornar funcionário do mês é a que imperava afinal o funcionário do mês recebe um aumento de 5% do salário. O ciclo da vida do rapaz era ir para o trabalho, voltar e descansar pois no dia seguinte teria mais trabalho. Fins de semana são dias livres para se fazer algo legal como dormir mais ou ir para o rio que fica perto de sua casa. Antes ele costumava sair com os amigos, mas essa rotina era mais maçante ainda pois por mais que achasse que sair com "os amigos" nos fins de semana fosse melhor do que dormir, na realidade o dia seguinta à saída era sempre pior e repleto de reflexões indesejáveis. Esses seus "amigos" arrumaram outros empregos e se distanciaram, alguns continuaram com a rotina de trabalhar a semana toda e no fim de semana sair para alguma festa.

   Mas o que poderia ser feito ? Alexandre sempre teve a capacidade de refletir, e sempre que refletia, aparecia uma solução para sua vida, se o seu trabalho era chato, fato era que Alexandre tinha potencial para arrumar um outro melhor. Antes, porque depois ele cortaria todo seu potencial intelectual para trocar por sensações que ele nem se lembrava no dia seguinte, assim como quem corta árvores em extinção para fazer móveis que ninguém vai comprar, e mesmo se alguém comprasse, não teria o mesmo valor que tem uma árvore. Todo dia, existem obstáculos da vida a serem superadoos, mas a capacidade de superá-los reside dentro da cabeça de qualquer indivíduo. A força necessária para superar está em aproveitar as pequenas coisas da vida, estar acima de tudo o que desagrada, saber que toda má fase é temporária, que se for investir em alguma coisa deve-se investir nas coisas que ficam, e não nas passageiras como Alexandre o fez.

   Um belo dia Alexandre viu-se imerso nessa rotina, sentiu se miserável ao perceber que viveria todo dia a mesma coisa, seria como um eterno retorno. Usou sua cabeça e decidiu sair em busca de qualquer coisa que o fizesse ir além, quebrar a rotina. Decidiu sair, decidiu cheirar todas as flores em seu caminho sentindo o aroma de cada uma delas e depois decidir qual era a melhor. Talvez plantar a melhor, não sabia ao certo. Saiu cheirando todas as flores, as margaridas, as orquídeas, as violetas, as rosas, as roxas, todas até chegar em uma chamada de Flor Doida,  Floroida, Flor que Endoidece ,e por alguns poucos chamada de Banana-sofá. Na realidade ninguém chamava a flor de Banana-sofá.  O grande problema é que essa flor, a Flor Doida, na realidade é uma droga alucinógena, e seus efeitos têm uma duração de cerca de uns 15 minutos. Alexandre então viu-se em uma perfeita situação, descobrira a fonte de alegria para sua vida, a solulção para seus problemas, descobrira o fim da monotonia.

   Infelizmente Alexandre não conseguiu pensar de maneira imparcial e foi levado a crer que a única solução era cheirar Floroida todo dia, sempre que quisesse relaxar ou se distrair. A primeira semana foi ótima, ele não cheirava todo dia e muito menos toda hora, só nos fins de semana. A segunda e a terceira foram um pouco distintas, pois foi acrescentado o consumo de perfume de Flor que Endoidece nas quartas feiras. A quarta semana foi o decreto para o futuro de sua vida. Declarou ser dependente de Floroida para todo e qualquer momento, sempre que estivesse triste em busca de se alegrar, sempre que estivesse feliz em busca de ficar mais feliz ainda, para relaxar, para olhar pro céu, para ver televisão, ouvir um som, tudo. Alexandre atrelou todo e qualquer momento desagradável de sua vida à falta de flor, e todo momento feliz à necessidade de ter mais flor na cuca.

   Após o primeiro mês de sua "grande descoberta" Alexandre foi demitido por estar agindo de maneira pirada. Não deu a mínima, afinal "aqueles malditos alienados do meu trabalho não sabem nada sobre a real felicidade da vida, sob os verdadeiros propósitos de viver". Arrumou um trabalho onde pagava-se infinitamente menos que o anterior, mas lá ninguém o julgava e isso era o que importava. Se alimentava muito mal, quase nunca tomava banho, perdeu sua vontade, sua gana, e sua qualidade de vida caiu absurdamente, faltava até sabonete em sua casa, mas nada importava afinal "coisas materiais não importam, não estou mal, estou muito bem, estou perfeito". Abandonou a vida real por uma "realidade virtual", abandonou as verdadeiras alegrias da vida pelas falsas. Encontrou um caminho muito bonito e atraente, tudo era fácil nesse caminho onde até era possível ver os outros, e como o caminho deles era mais difícil ! Uma pena é que o caminho difícil leva às grandes conquistas, e o caminho das coisas fáceis infelizmente é o caminho da ilusão. "Só tolos podem tentar viver uma vida sem saber curtir". É, realmente Alexandre, você deve saber curtir bastante ! Deve ser um artista exímio na arte de viver a vida ! Uma pena é que não sabes tomar banho.

   Alexandre viu sua vida ruir, não, ele não viu nada, ele não via nada, ele não via a hora de dar uma cheirada em sua bela flor. Mas a realidade foi outra, nada estava bem, nada, alexandre mesmo que não estivesse prejudicando seu corpo, aleijara sua mente, aleijara seu psicológico. Alexandre não precisava de olhar pro céu para se alegrar, nem precisava ter uma hora de difíceis reflexões sobre sua vida atual como fazia, era apenas cheirar a flor e aproveitar as sensações passageiras. Alexandre perdeu sua casa pois não pagava o aluguel há muitos meses, e como eu havia dito, perdeu sua consciência da realidade.  Adorava chamar as pessoas que não eram como ele ( pessoas que não eram viciadas em cheiro de flor, não "curtiam a vida", pessoas que tinham empregos. Pessoas que viviam suas vidas sem precisar de alguma coisa senão a própria sanidade mental, a própria razão) de alienados. Ora essa ! Alienados, Alexandre ? Não será você que foi alienado e tornou-se escravo de meras sensações ? Abdicou de sua vida inteira por meras emoções ? Pediu para alguém te coçar sendo que possuia braços ? Nascido em um lugar tão belo, tendo vivido sempre com a verdadeira felicidade à sua volta, tendo todas as ferramentas para ser feliz em suas mãos, preteriu a vida à uma falsa vida, esse é nosso querido Alexandre, o tolo.

Jorge Madoz

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Que é a Vida ?

Pois frequentemente,
A vida derruba.
Corta a bela juba
Leão sorridente.

Esmaga teu orgulho,
Te faz dar mergulho
Em um mar de rosas
Falsas, mentirosas.

Não pise na bola,
A vida ? Escola !
"Leão, já pra jaula"
Uma dor por aula.

A felicidade ?
Existe, verdade !
Algo ter ? Não ser !
É o modo de ver !

A vida é parente
Bem próximo, sim
Do que você sente
Vendo um Serafim.

A felicidade
É a esposa da vida.
A vida vivida
Feliz é quem sabe.

Como a flor de liz,
Sim, o casamento,
Mais perfeito e bento
É a vida feliz.

Jorge Madoz